- Neste Janeiro Branco, Diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec alerta que transtornos mentais afetam o cérebro, a qualidade de vida e exigem cuidado precoce e sem preconceito -
Janeiro de 2026 – A campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre a saúde mental, chama a atenção para um tema que ainda enfrenta preconceito, desinformação e resistência ao tratamento. Segundo o médico psiquiatra Henrique Cassis Ribeiro Santos, diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, da Fundação Espírita Allan Kardec de Franca, o impacto do sofrimento psíquico vai muito além das emoções. “O sofrimento mental machuca o cérebro”, resume.
De acordo com o especialista, ao menos 10% da população é acometida por algum transtorno mental, como depressão, transtornos de ansiedade, transtornos obsessivo-compulsivos, psicóticos, de humor e de personalidade. “Existe uma gama variada de transtornos que levam a um sofrimento muito importante. Muitas vezes, essa pessoa acaba marginalizada, excluída e vítima de preconceito”, afirma.
Apesar de avanços na discussão pública sobre o tema, Henrique avalia que a conscientização ainda é desigual. “Hoje se fala mais sobre saúde mental, muitas pessoas assumem o sofrimento e procuram tratamento. Mas ainda há uma grande parcela que resiste, inclusive de forma inconsciente”, explica. Essa resistência pode se manifestar no abandono de consultas, no uso irregular de medicamentos ou na crença de que o sofrimento será superado apenas pela força de vontade.
O psiquiatra alerta que um dos principais desafios está em reconhecer os sinais de alerta, especialmente quando o quadro não é grave a ponto de interromper totalmente a rotina. “Nem sempre a pessoa está em sofrimento intenso. Muitas mantêm uma funcionalidade parcial, mas com qualidade de vida muito abaixo do que poderiam ter”, observa. Nesses casos, a piora da funcionalidade, alterações do sono, dores físicas recorrentes, cansaço persistente e mudanças de comportamento devem ser encaradas como sinais importantes.
“O problema é que isso muitas vezes é confundido com o cansaço da vida moderna”, explica. Jornadas extensas de trabalho, múltiplas responsabilidades, pressão por resultados e excesso de estímulos contribuem para esse cenário. “Hoje, precisamos estar atentos a inúmeras exigências, e isso gera um desgaste real. Mas nem todo cansaço é apenas cansaço. Muitas vezes, é um transtorno psiquiátrico em curso.”
Entre os quadros mais prevalentes atualmente estão os transtornos depressivos e ansiosos, que, segundo o médico, representam a maior parte dos atendimentos. A pandemia da Covid-19 também deixou marcas profundas. “Muitos transtornos se iniciaram durante a pandemia e se cronificaram. Ainda hoje recebo pacientes com quadros que começaram naquele período e não foram devidamente tratados”, relata.
Outro fator de impacto crescente são as redes sociais, que podem atuar como estressores psíquicos. “Elas muitas vezes expõem realidades irreais, padrões inalcançáveis e uma vida idealizada. Para quem já está fragilizado, isso pode agravar ainda mais o sofrimento”, alerta Henrique. Ele também chama atenção para a disseminação de falsas promessas de cura e soluções milagrosas, que acabam explorando pessoas em situação de vulnerabilidade emocional.
Do ponto de vista biológico, o médico reforça que o sofrimento mental não é apenas emocional. “Há inflamação cerebral, alterações hormonais e mudanças nas conexões do cérebro. Quanto mais tempo o transtorno permanece ativo, sem tratamento, mais prejudicial ele se torna, inclusive dificultando a recuperação”, explica. Por isso, o cuidado precoce é fundamental.
Cuidados diários
No dia a dia, atitudes simples podem contribuir para a preservação da saúde mental: manter uma rotina organizada, cuidar do sono, evitar o consumo excessivo de álcool, praticar atividade física, estimular a mente e fortalecer vínculos sociais. “Estimulação não é algo complicado. Ouvir música, conversar com amigos, ter exposição à luz durante o dia e reduzir telas à noite já fazem muita diferença”, orienta.
Para quem ainda vê a busca por ajuda como sinal de fraqueza, o psiquiatra é enfático. “A pessoa até pode ser funcional, mas vai viver aquém do que poderia. Vai sofrer mais, ter mais risco de doenças clínicas e não alcançar sua plenitude. A vida passa muito rápido para ser vivida em sofrimento”, afirma.
Em Franca, a população conta com uma rede estruturada de atenção à saúde mental, que inclui a rede pública, com UBSs, CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e ambulatórios, além da rede privada, com consultórios e profissionais especializados. O Hospital Psiquiátrico Allan Kardec atua como retaguarda para casos que exigem intervenções mais agudas, garantindo acolhimento e cuidado adequado.
“O sofrimento faz parte da vida, mas quando ele se torna contínuo e causa prejuízos, é hora de procurar ajuda. Um profissional que acolha, que caminhe junto e esteja preparado para essa jornada. Porque, sim, o sofrimento mental machuca o cérebro - e cuidar da saúde mental é cuidar da vida”, conclui.