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Suicídio entre jovens

Publicado em 30/09/2021

Um luto por qualquer motivo que seja, traz consigo dores avassaladoras aos familiares e pessoas próximas quando ocorre por acidente, doença ou qualquer outro motivo. Mas e quando alguém decide por si mesmo, colocar um fim a sua vida, cometendo suicídio, deixando aos outros a dor da incompreensão, da perda, da culpa?

Dados de pesquisas estimam que 60 pessoas sejam intimamente afetadas em cada morte por suicídio, incluindo família, amigos e colegas de classe. Como a OMS estima que 800 mil pessoas morram por suicídio a cada ano, cerca de 48 milhões e 50 milhões de pessoas podem ser expostas ao luto do suicídio em um ano.

Esses parecem ser bons motivos pra que possamos falar sobre isso, superar o tabu que envolve o assunto.

De um lado existe uma proibição de divulgar nas mídias, notícias sobre suicídios, pra que isso não incentive outras pessoas que estão deprimidas a tomarem a mesma decisão, mas de outro lado também se impede de falar abertamente sobre isso e mostrar que há outras saídas possíveis para a dor existencial.

POR QUE PRECISAMOS FALAR SOBRE SUICÍDIO?

É fato que atualmente o maior número de tentativas de suicídios ocorre entre adolescentes e jovens adultos, e que ¼ dos jovens entre 18 e 24 anos, já considerou seriamente o suicídio nos últimos 30 dias.* Esses dados são preocupantes porque exatamente nessa fase da vida, espera-se que o jovem tenha desejos suficientes para viver e força física para ir em busca dos seus sonhos, mas parece acontecer exatamente o contrário.

A prática clínica com adolescentes mostra uma juventude desprovida de esperança e desejos. Frente a um mundo que oferece tantas facilidades, tantas possibilidades, fica difícil fazer uma escolha, ao mesmo tempo as redes sociais projetam falsos valores de felicidade e sucesso criando expectativas inalcançáveis.





A adolescência, que hoje se prolonga adentro dos 20 anos ou mais, é uma fase cheia de lutos para se elaborar, quimicamente instável na produção de hormônios, que torna por si só, uma fase propícia aos questionamentos existenciais e a uma certa rebeldia frente às ordens existentes. É preciso elaborar uma nova autoimagem diante de um corpo que se transforma, abandonar comportamentos infantis, identificar sua orientação sexual, perder os pais idealizados da infância, escolher uma profissão, etc.

A vida moderna, líquida, como definiu Zigmunt Bauman, e virtual, coloca superficialidade e instantaneidade aos relacionamentos, dificultando aos jovens a criação de vínculos e referências constantes em uma fase que necessita de ordem e limites para o mundo interno caótico do jovem.

A pandemia também impôs aos jovens maior isolamento, numa fase em que o vínculo social é primordial, pois jovem e grupos são quase sinônimos, voltando-os para dentro de suas casas, muitas vezes desestruturadas e sem suporte emocional.

Junte-se tudo isso e terá um caldeirão de pólvoras.


FATORES DE RISCOS PARA O SUICÍDIO

Além da depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e abuso de substâncias como álcool e drogas há alguns fatores que aumentam o risco de suicídio como;

  • Abuso sexual na infância
  • Alta recente de internação psiquiátrica
  • Doenças incapacitantes
  • Impulsividade
  • Agressividade
  • Isolamento Social
  • Suicídio na família
  • Tentativa prévia
  • Famílias desestruturadas, sem apego seguro
  • Bulling e cyber bulling

A observação de pais, adultos e responsáveis pelo jovem, como professores, é muito importante e embora a causa de um suicídio seja multifatorial há alguns comportamentos que podem dar pistas de suas emoções.

Os pais precisam perceber as mudanças de comportamento dos filhos, os sinais que adolescentes emitem quando estão passando por algum problema. Alguns destes comportamentos são isolamento, impulsividade, tristeza constante, distorção de imagem corporal, dificuldade de relacionamento com pessoas da mesma idade, insegurança, queda no desempenho escolar, crises de raiva, baixa autoestima, atração por comportamentos de risco, automutilação.

Como disse anteriormente o suicídio é sempre causado por vários fatores, então isoladamente, nenhum desses fatores de risco pode predizer um comportamento de suicídio, mas quando há vários fatores juntos, o cuidado deve ser redobrado.

COMO ABORDAR O ASSUNTO

Quando há comportamentos, seja no jovem ou no adulto, que demonstre apatia, desinteresse pela vida, comportamento de risco, ou qualquer dos fatores de riscos citados anteriormente, é preciso falar claramente com perguntas do tipo “Você já pensou em se ferir ou se machucar?”, “Você já considerou a possibilidade de morrer?” “Você pensa que é um peso pra todos?, deixando claro sua preocupação mas com uma postura não recriminativa, sem julgamentos morais. É preciso abrir o diálogo e se suas suspeitas se confirmarem é preciso buscar ajuda médica e psicológica.

O médico fará a avaliação do nível de risco que a pessoa apresenta e guiará seu tratamento conforme esses níveis, ás vezes a internação é necessária para que o paciente não faça nada a si mesmo.

Nesse momento cuidado redobrado, fortalecer laços e vínculos, procurar escola para saber se algo acontece por lá, amigos, trazer um bom ambiente para dentro de casa, conversar sobre a importância dessa pessoa para todos, ou seja, aumentar os fatores protetivos que afastam o risco de suicídio.

Enquanto o médico guia o tratamento para equilibrar neurotransmissores, a ajuda psicológica é fundamental. Dar voz a dor que não se compreende, construir outros significados para lembranças do passado ou situações sofridas anteriormente, construir um vínculo confiável e seguro com o terapeuta onde possa se sentir acolhido e compreendido em sua dor existencial são meios de vencer pensamentos obsessivos e autodestrutivos.

SUICIDIO E TENTATIVA DE SUICIDIO. AJUDA E ATENDIMENTO PRIMÁRIO

Pacientes que tentam suicídio, costumam ser recriminados e criticados quanto as tentativas de suicídio no atendimento primário, com alguns profissionais da linha de frente. Mesmo sendo profissionais de saúde, veêm a tentativa às vezes como covardia ou um ato para chamar a atenção. Pois se alguém está precisando chamar atenção dessa forma, já não é por si só indício de um transtorno emocional?

Encaminhar para psiquiatria, psicologia, assistência social, para investigar o ambiente que esse jovem se encontra pode ser um caminho para ajuda e evitar de novas tentativas.

Assim como o suicídio ou tentativas de suicídios tem causas multifatoriais, a ajuda que chega de forma multidisciplinar é sempre mais efetiva. Sempre e em qualquer circunstância, seja na tentativa ou no ato suicida, muito ajuda quem se cala. Nesse caso ajudar é estar presente em silêncio, sem perguntas curiosas, sem julgamentos, sem procurar culpados. Aprender a respeitar a escolha do outro, mesmo sem compreender é o que resta quando o ato foi realizado.

* dados da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e CFM (Conselho Federal de Medicina)

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A Clínica Psiquiátrica Allan Kardec e uma unidade da Fundação Allan Kardec que realiza mais 70 mil internações/ano em Franca e região.

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Ariane Martins
Ariane Martins
Ariane Martins
Psicóloga. CRP 103.482
Pós graduada em Psicoterapia Analítica de Grupos,
Psicanálise Contemporânea e Educação Moderna
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