BLOG Setembro Amarelo. Sobre o Suicídio.

Setembro Amarelo. Sobre o Suicídio.

Publicado em 23/09/2021

Desejar a morte em algum momento da vida de muita tristeza é natural e isso não quer dizer que exista o desejo de suicídio. Talvez possamos pensar em um desejo de não existir, nessas situações, mas não de se suicidar.



Mas o que acontece com as pessoas que realmente, avaliam, tentam, premeditam a própria morte?

O suicídio na maioria das vezes é um ato premeditado intencional de quem realmente desistiu da vida, não vê esperanças e não suporta mais a dor que sente. Outras vezes é um ato impulsivo, tomado em um momento de desespero ou raiva. Nesses casos há que se pensar em um ato dirigido a outro para puni-lo, como se deixasse para o outro o fardo de viver com a culpa. Fica no ar a frase: “Você me matou.”

Para esses atos de desespero, raiva, impulsividade nem sempre há o que fazer. Provavelmente se a pessoa se acalmasse diante de uma situação que a perturbou, não faria isso.

Para os casos em que o suicídio não é um ato impulsivo há um transtorno emocional junto, na maioria das vezes a depressão. Digo na maioria porque algumas pessoas tomam essa decisão quando ficam sabendo de uma doença grave e incapacitante e escolhem não passar por aquilo ou quando estão diante de um acontecimento inevitável como um fracasso financeiro para o qual não veem saída.

A depressão é um transtorno emocional causado pela perda simbólica de algo ou alguém muito importante e significativo para a vida da pessoa. Pode ser um relacionamento, um trabalho, um sonho, um afeto familiar, a dificuldade de não conseguir ser o que os pais esperam e consequentemente não se sentir amado pelo que é, ou seja, realmente situações em se perde as forças emocionais e uma lenta e dolorosa dor de viver aumenta a cada dia.

Perde-se o prazer de fazer coisas que gostava, perde-se a vontade de conversar, de se cuidar, prevalece o desamparo existencial diante de um mundo que o encolhe.

E quando falo em suicídios, há que se pensar também em suicídios inconscientes. Pessoas que parecem não se importar com a própria saúde vivem correndo riscos. Consomem drogas, bebidas, dirigem em alta velocidade.

Há nessas pessoas uma pulsão muito forte para a morte, um desejo de cessar um vazio existencial, uma raiva voltada para a destruição de si mesmo.


SUICÍDO. HEREDITÁRIO OU APRENDIDO?

O suicídio não é um componente genético transmitido hereditariamente, mas sim, é possível ver vários casos em uma família, isso se deve a depressão ou a outros transtornos emocionais, esses sim, hereditários. Mas ainda a depressão também pode ser pensada pelo viés da aprendizagem ambiental. Imagine o peso emocional que uma família carrega diante do suicídio de um pai. A dor causada por uma situação assim, provavelmente repercutirá nos filhos, que podem se desenvolver frágeis emocionalmente, e quando tiverem seus próprios filhos, vá criá-los num ambiente triste e desprovido da capacidade de aprender a alegria, o afeto, e a vontade de viver. Esses filhos, netos, também correm o risco de crescer adoecidos e carregam ainda a dor silenciada do suicídio na família. Seguir o mesmo caminho pode ser uma opção aprendida.

O fato do suicídio ser uma solução aprendida é que tornou um tabu falar sobre assunto e há uma lei que proíbe sua divulgação. É comprovado o efeito em cadeia quando se noticia suicídio de pessoas famosas. É como dar a ideia a muitos que já não viam saída também para a sua dor.


MITOS E VERDADES SOBRE O SUICÍDIO.

  • Quem ameaça não faz. Não é verdade. Estatísticas mostram que quase todas as pessoas que concluem o ato, avisaram de alguma forma que o fariam. Às vezes falando claramente, ás vezes com frases do tipo “eu não vou fazer falta”, “não vou ser mais um problema pra ninguém”, ou quando começam deixar sua vida organizada, doando objetos importantes, demonstrando um isolamento fora do normal.
  • Quem tenta uma vez e sobrevive não tenta de novo. Isso não é verdade. Enquanto permanecer adoecida a pessoa pode tentar de novo e isso é muito comum que aconteça. A pessoa que tenta uma vez precisa ser acompanhada, tratada e só depois de curada daquilo que a adoeceu, estará fora de perigo.
  • Não se deve falar sobre suicídio com alguém muito deprimido, para não provocar o ato. Isso também não é verdade. Perguntar a uma pessoa se ela já pensou em deixar de viver ou se pensa em se matar, pode dar a oportunidade de buscar ajuda, pode mostrar a essa pessoa que ela importa e que há pessoas que se preocupam com a vida dela.
  • Quando a pessoa está medicada e acompanhada deixa de correr risco de se matar. Isso também não é verdade. Há muitos dados de que ás vezes a medicação melhorando o estado geral da pessoa permite que ela crie coragem para fazer o que antes não tinha nem forças.


COMO AJUDAR?

É importante pensar que a pessoa que tenta o suicídio, não é covarde ou fraco. Ela está doente. A dor emocional, por não ser diagnosticável ou mensurável, é desvalorizada. Não julgar a dor que não se vê é uma forma de empatia e ajuda.

Oferecer ajuda, mostrar que se importa com a vida dela, avisar a família quando for um amigo, levar ao psiquiatra, ao psicólogo, buscar um suporte na religião ou espiritualidade da pessoa são formas de ajudar.

E quando se trata de pessoas que perderam alguém pelo suicídio é imprescindível ajuda emocional de um profissional para as pessoas mais afetadas por esse ato. Importante lembrar que essa foi uma escolha da pessoa diante do próprio sofrimento, ninguém tem culpa, e muito menos poderia ter evitado o ato. Uma vez tomada a decisão, a pessoa encontrará circunstância e oportunidade para realizar o ato. É preciso ajudar aos que ficam se libertarem do peso da culpa.

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Ariane Martins
Ariane Martins
Ariane Martins
Psicóloga. CRP 103.482
Pós graduada em Psicoterapia Analítica de Grupos,
Psicanálise Contemporânea e Educação Moderna
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